Que outra forma possível de abordar um assunto, cuja multifatorialidade tem sido ainda desbravada e documentada, como o suicídio, senão pelas tangências que os circundam? Mais ainda, se como psicanalistas consideramos a imprevisibilidade do desejo no ato que define o fim da linha, entendendo que não basta conhecer e mapear as contingências sociais, filosóficas, e existenciais.
É preciso estar advertido de que não existe nada de mais misterioso aos viventes que o suicídio.
Diante da morte voluntária, qualquer tentativa terceira de explicá-la seria impregnada de equívocos, pois só aquele que morreu poderia dizer de suas razões, e quiçá, de compreendê-las. O que não significa torná-la compreensível a outros… é sabido que a verdade, com alguma sorte e empenho, só pode ser dita aos pedaços, não sendo possível dizê-la toda.
O que coloca outro enigma: se fosse possível tornar compreensível o desejo de morrer derivado do sofrimento psíquico, haveriam tantos suicídios? Suicídios: no plural, pois suas causas e determinações não são unívocas.
A ilusão de compreensão – tão debatida na psicanálise sob o efeito do “imaginário”, como algo ao qual o psicanalista em sua função deve se atentar para ser capaz de conduzir o tratamento pela via do discurso, isso é, do simbólico, e que, ao mesmo tempo, “nessa espécie de real tão misterioso que se chama vida, o funcionamento imaginário é absolutamente essencial” (Lacan, 1971) – parece ser o obstáculo que abre uma margem e que distancia ainda mais os que sofrem, acossados pela dor psíquica, e os que não podem alcançar no horizonte o entendimento, ou a ilusão da compreensão, dos prejuízos de uma angústia sem freios.
Que um psicanalista ocupe-se da função de falta-a-ser, servindo-se de objeto a àqueles que lhe endereçam análise, não significa essencialmente, que a negação de estudos e a compreensão de fenômenos que correspondam à subjetividade da época seja a via única para sua formação.
Tangenciar o tema do suicídio, aproximando dele outros fenômenos diversos, como o adolescer, o envelhecer, as cronicidades, adicção, autolesão, depressões neuróticas, melancolias, tantos outros (aqui mencionei alguns dos fenômenos clínicos, menciono outros exemplos que também os tangenciam: as questões sociais, raciais, etnicas, de classe)… tem sido uma maneira de enxergar no horizonte uma forma possível de trazer este assunto para debate e construção na psicanálise, de forma artesanal, e, nem por isso menos cuidadosa e ética, recortando casos de fracassos, de êxitos, sem desconsiderar o risco incalculável presente no real do desejo.
E justamente por esse risco, seguir apostando nele.
Aguardem mais notícias 🙂
Jessica Falchi Caçador

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