Psicóloga e psicanalista
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para adultos e adolescentes

Será que banalizamos a angústia?

Um dos principais esforços da clínica psicanalítica é de converter uma angústia não simbolizada em palavras, a fim de buscar um rastro a ser seguido, um caminho a ser construído na relação de alteridade que se estabelece entre analista e analisante.

Consiste nisso a raiz do nosso ofício, aliás, esbarram aí também nossas resistências e dificuldades de avançar nos casos. Preconceitos, pontos cegos, dificuldades com os discursos e narrativas que nos afetam. Então buscamos por supervisão, que consiste neste encontro com outro profissional, onde o objetivo é discutir junto de um outro que não está afetado pelo caso possíveis oxigenações para os entraves que bloqueiam nossa escuta. Para estes encontros entre profissionais, prefiro até o termo “outra-visão” – porque me parece que retira a relação de hierarquia que o termo “super” sugere.

Não posso deixar de pensar o quão sério é o trabalho de um supervisor; oxigenar o desejo de analista do profissional que o procura, cuja finalidade é, e deveria ser, alçar efeitos de cura (essa palavra machucada e banida do vocabulário dos psicanalistas) que alcancem a outra ponta – o paciente. A supervisão é isso: um momento de reinaugurar o desejo de que aquela análise siga desenrolando, que autoriza e incentiva o ato analítico e que produza direção e cura para os tratamentos. Uma supervisão que pedagogiza o supervisionando, que foca na relação de saber e poder sobre o que é certo e o que é errado, mina as preciosidades da clínica: desejo e ato.

Recebo muitos supervisionandos angustiados relatando falta de progresso em seus casos quando estiveram com supervisores que se ocupam de falar difícil, de envaidecerem-se do lacanês e ostentar interpretações que não auxiliam a desnublar os impasses que esses analistas encontram em suas clínicas.

A mim, fica claríssimo: se uma supervisão minimamente não auxilia o analista com o caso, é preciso que se busque por outras.

Entendo que a banalização da angústia acontece também em supervisões.

A mim, a coisa parece soar mais ou menos assim: se você se afeta pelo que teu analisando está relatando, você é fraco, você não é profissional, você não é um bom analista. Se você se angustia com um desfecho ou situação da clínica, você não é um bom analista. Se você se preocupa com a integridade física, emocional e mental do analisando, você não é um bom analista. Um bom analista sabe fazer manejos estritamente teóricos e embasados no que Lacan uma vez ousou dizer nos seus seminários e blablablá. Ficou cada vez mais difícil encontrar um bom supervisor, um profissional com o qual a troca aconteça e flua para além da teoria.

Me parece que este posicionamento que escorrega para o tecnicismo banaliza e não legitima as angústias que envolvem o trabalho na clínica – daí vira um tecni-cinismo. Como se quanto mais você se afeta, menos técnico e letrado você é, e quanto mais técnico você se torna, menos poderia se afetar, e menos ainda poderia se envolver, afinal, você deveria estar protegido pela técnica. Coisas que foram perdendo cada vez mais o sentido pra mim, e pelo que ando escutando, não sou a única pensando sobre.

Afetar-se, envolver-se, parecem palavrões e jargões banidos de supervisões, grupos de estudos e encontros entre colegas. Palavras machucadas, que esvaziaram-se e perderam sua importância diante do principal afeto com o qual lidamos: angústia.

Pois bem, o trabalho da clínica envolve muita angústia, sim. Muita renúncia. Muito afeto. Muita causa. Muito desejo.

Será que banalizamos a angústia de nossos analisandos?

Será que estamos lidando com tantos tipos de angústia que a banalizamos, colocando-a em uma grade de horários e agendas?

Será que banalizamos a angústia dos supervisionandos quando estes buscam, pr’além de teorias, também algum acolhimento no contato com outro profissional, com outra pessoa?

Questionamentos que tenho levantado ao longo dos últimos anos, a partir da experiência de supervisionar e ser supervisionada.

Obrigada por ler até aqui,

Jessica Falchi Caçador

8 respostas para “Será que banalizamos a angústia?”.

  1. texto maravilhoso, oxigenou algo por aqui também! adorei a forma como você escreveu cada palavra

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    1. Agradeço pela sua leitura, Anna! Bom receber notícias de que ressoou por aí…

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  2. Que belíssimo texto! Obrigada, Jessica, por compartilhar conosco.

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  3. Que belíssimo texto! Obrigada, Jessica, por compartilha-lo conosco.

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  4. Obrigada, Jéssica, por compartilhar este texto fantástico! Ler cada palavra é muito prazeroso, pois de fato, vejo que nossas angústias, enquanto novos analistas em formação, na maioria das vezes não são acolhidas e sim julgadas. Ao que percebo, acolhimento e conhecimentos ou experiências, para alguns analistas, estão em caminhos distantes, quando deveriam andar juntos. Esta leitura é oxigenadora!

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    1. Oi Luciana! Achei interessante seu comentário, e muito pertinente: analista em formação – e não estamos todos? Mesmo aqueles com mais tempo cronológico de percurso não estão imunes aos afetos presentes no trabalho da clínica, nem imunes ao desconhecido. Talvez o equívoco seja pensar o contrário… Obrigada por sua leitura, um abraço ❤

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  5. Boa tarde, Jessica! Tudo bem?
    Gostaria de te agradecer por compartilhar um pouco dos seus questionamentos através desse texto, para mim foi como um ato de abraçar com palavras! Respondo do lugar de uma angustiada. Muito Obrigada!


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    1. Agradeço pela sua leitura e comentário, Claudia! Um abraço e sigamos (apesar da angústia, hehehe)

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