O autor Edwin Shneidman coloca que o suicídio se configura como uma tentativa de resposta a uma necessidade psíquica urgente, e que a questão central do suicídio não é sobre matar ou sobre morte, é sobre fazer cessar uma dor psíquica insuportável, interrompenso (decidir manter esse ato falho da escrita) assim, o fluxo de consciência.
Não se trata de escolher entre uma coisa e outra, pois num cenário de sofrimento psíquico intenso, não há alternativas, senão a de parar a dor. A partir disso é possível afirmar que nem sempre um suicídio se configura como uma decisão racional e arbitrária. O suicídio, para muitos dos casos, é um acidente de percurso, que atravessa e interrompe sem por fim nem preambulo, escancarando uma ferida na história de quem vai, mas sobretudo, na dos que ficam.
Como psicanalista, a partir do que propõe Lacan, entendo que a constituição da subjetividade é determinada por elementos que nos antecedem, transmitidos pela cultura, costumes, crenças, religião, política – estes, preservados, ordenados e transfigurados pelo percurso dos significantes, que determinam pontos importantes sobre história e um histórico, que nos antecede como sujeitos. Aquilo que Lacan nomeou como uma ordem simbólica.
Dito isso, como seria possível afirmar que as nossas escolhas são de fato só nossas? Uma vez que as escolhas, sejam quais forem, percorrem por caminhos que são compartilhados e atravessados por tantos saberes e discursos, o que seria de fato uma decisão singular, pautada na escolha de um agente do arbítrio? Pensando além, o que é de uma escolha? Do que é feita? Uma pergunta para um texto futuro…
Coloco esse questionamento para convidar o leitor a refletir sobre esse assunto. Já escutei sendo dito que uma psicanálise nada pode diante de pessoas em risco de suicídio. Assim como já escutei de tantos profissionais que não há o que ser feito quando a pessoa escolhe morrer – que se ela escolheu, está escolhido. De que escolha estamos falando? Se trata mesmo de uma escolha? Para alguns casos, penso que sim, para outros, penso que não.
Aliás, ouso dizer, que muitos psicanalistas se chocam (e por que não, resistem?) ao se depararem com escolhas tão decisivas, visto que estão mais preparados para se posicionarem de frente pra eterna e batida dúvida neurótica que coloca o sujeito numa posição de nada escolher, nunca. Sobre isso, temos literatura vasta…
Me ocorre mencionar a questão colocada a partir da observação que faz Lacan em seu escrito sobre a subversão do sujeito, ao se apoiar no shifter linguístico: “quem está falando? quando se trata do sujeito do inconsciente”. O sujeito que nos interessa é o que é produzido no corte significante, na descontinuidade – só assim é possível localizar como este está vinculado à significação. Portanto, reescrevo a pergunta: quem está escolhendo? Ou ainda: o que – ou quem – está decidindo quando acontece uma escolha? Sobretudo, a escolha do suicídio.
Retomo a frase celebre de Marcelo Veras: o suicida se mata ou mata a imagem de si?
Estou longe de afirmar que a função de um profissional é impedir qualquer suicídio, afinal, é impensável impedir a morte. Assim como estou muito distante afirmar que nada há a ser feito, que se uma decisão está tomada, só posso aceitar.
Sobretudo como psicanalista, é importante fazer as perguntas não-feitas, pois, quando diante do flerte com a possibilidade do suicídio, muita coisa se condensa e se oculta na narrativa daquele submetido a uma angústia sem freios: o que leva uma pessoa ao planejamento do suicídio? A acreditar que aquela seria a única solução possível para sua angústia? Que angústia é essa, afinal, e como ela incide e exerce sobre a história e a pessoa? Qual de nós pode afirmar se há ou não o que ser feito diante de um sofrimento que se perpetua por tanto tempo? O que seria isso, afinal, a ser feito? Estarmos cientes de nossas impotências, nos coloca em qual posicionamento? O que nos cabe e o que não nos cabe?
São essas perguntas nos levam a caminhos e pistas mais frutíferas para pensarmos o posicionamento de um psicanalista diante do risco de suicídio, e talvez, a possíveis elaborações – construídas em análise – que estão longe de serem simplistas.
Obrigada por ler até aqui,
Jessica Falchi Caçador

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